A AUTOBIOGRAFIA NAS ANTILHAS

 

Jovita Maria Gerheim Noronha - UFJF/UFF

 

 

A inspiração autobiográfica na produção literária antilhana não é nova. Um exemplo disso é La rue Cases-Nègres do martinicano Joseph Zobel, de 1950. A dedicatória à mãe e à avó, assim como o texto da quarta capa convidavam à uma leitura autobiográfica. Entretanto, a partir da edição de 1955, Zobel, retira a dedicatória, sugerindo assim uma leitura não referencial de sua obra. Do mesmo modo, a escritora guadalupense, Maryse Condé, cujo primeiro romance, Hérémakhonom, apresenta muitas semelhanças com sua vida nega o caráter autobiográfico de seu texto.

De fato, só nos últimos dez anos, o gênero autobiográfico propriamente dito começa a ganhar corpo na literatura caribenha, com as obras de Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant (Martinica), Gisèle Pineau (Guadalupe), Émile Ollivier (Haiti) e da própria Maryse Condé, que propõem um pacto de leitura não romanesco.

Minha proposta é examinar os relatos de infância de dois desses escritores: Antan d´enfance (1990) e Chemin-d´école (1994) de Patrick Chamoiseau e Mille eaux (1999) de Émile Ollivier. Essas narrativas, embora se apresentem como textos referenciais, não visam à reconstituição fiel das primeiras experiências, mas recorrem explicitamente à ficcionalidade. Não se trata pois de retratar a infância mas de encená-la, em função das convicções presentes do eu.

O que nos permite inscrever essas obras no gênero autobiográfico é a presença do pacto autobiográfico (LEJEUNE, 1975).

O título da autobiografia de Émile Ollivier, Mille eaux, remete, ao mesmo tempo, ao diminutivo de Émile, Millo, apelido de infância do autor, como também ao próprio período evocado: a idade "de l´innocence et ses mille eaux"(OLLIVIER, 1999, p.171). O pacto autobiográfico, em sua narrativa, é metaforizado como um mergulho no oceano do passado:

 

(...) je veux, comme à l´encontre des marées montantes, nager vers ces années truquées, vers ces années de mots en défaut. (...) Je traque les échapées de ma mémoire et je rapporte les émotions des moments flottants vécus dans ce microcosme que n´épargnaient pas les tourmentes de la Seconde Guerre mondiale; et je rapporte les impressions de moments incertains vécus dans cette terre perdue de la mer des Caraïbes où sous l´Eldorado apparent, couvaient violences, désastres, décombres, ruines (OLLIVIER, 1999, p.15).

 

No relato de Chamoiseau, o pacto autobiográfico não é estabelecido diretamente com o leitor, mas com a Memória:

 

Peux-tu dire de l´enfance ce que l´on ne sait plus ? Peux-tu non la décrire, mais l´arpenter dans ses états magiques, retrouver son arcane d´argile et de nuages, d´ombres d´escalier et de vent fol, et témoigner de cette enveloppe construite à mesure qu´effeuillant le rêve et le mystère, tu inventoriais le monde ?

Mémoire ho, cette quête est pour toi. (...)

Mémoire, passons un pacte (CHAMOISEAU, 1996, p.21).

 

A Memória torna-se pois um dos personagens da narrativa, interpelada por um narrador na primeira pessoa — o eu adulto — que conta, na terceira pessoa, a história do eu criança, o négrillon.

Contudo, nos dois casos, o eu que conta sua história reconhece os limites de sua empresa. Estamos diante de um tipo de autobiografia “consciente de sua inconsciência”, tal como propõe Alain Robbe-Grillet, em relação às suas próprias memórias:

 

Peut-on nommer cela, comme on parle de Nouveau Roman, une Nouvelle Autobiographie, terme qui a déjà rencontré quelque faveur ? Ou bien, de façon plus précise — selon la proposition dûmente étayée d´un étudiant — une “autobiographie consciente”, c´est-à-dire consciente de sa propre impossibilité constitutive, des fictions qui nécessairement la traversent, des apories qui la minent, des passages réflexifs qui en cassent le mouvement anecdotique, et, peut-être en un mot: consciente de son inconscience ? (ROBBE-GRILLET, 1994, p.17).

 

Apesar do contrato de leitura autobiográfico e referencial, em ambos os relatos, o eu que empreende sua narrativa está consciente da impossibilidade de reconstituir seu passado sem recorrer à ficcionalidade.

Na obra de Chamoiseau, Man Ninotte, sua mãe, a grande confidente, representa a única fonte que pode retificar os erros da memória, preencher os espaços vazios e detectar a parte de ficção — para ela, de mentira — presente no texto do narrador, que constrói, por vezes, histórias mirabolantes, a partir de um episódio banal: “Tant pis si c´est un menti, se défend le scribe honteux. — C´est pas tant pis, c´est un menti, répond Man Ninotte, implacable” (CHAMOISEAU, 1996, p.46).

É que, para o eu que se narra, não é possível separar memória e imaginação: “Mémoire, je vois ton jeu: tu prends racine et te structures dans l´imagination, et cette dernière ne fleurit qu´avec toi” (CHAMOISEAU, 1996, p.71).

Na autobiografia de Ollivier, o eu, apesar de se dar conta da impossibilidade de ordenar de maneira lógica suas lembranças, se nega a consultar as pessoas de sua família, pois certos acontecimentos são por demais dolorosos para serem reavivados: “les souvenirs nous renvoient immanquablement au temps et à la mort; (...) il y a trop de cadavres entre alors et maintenant, trop de douleurs, trop de plaies mal cicatrisées, trop de silence, une chape de plomb trop lourde à soulever” (OLLIVIER, 1999, p.49).

Ao invés de partir à procura de lembranças verdadeiras, que lhe permitiriam construir uma história mais próxima da verdade, mas que lhe trariam muito sofrimento, o eu prefere capturar as imagens que se oferecem a ele e completar as lacunas de sua narrativa através da imaginação: "Je continuerai donc à traquer ces images qui se dérobent, à en inventer d´autres qui se plaisent à prendre des airs de souvenirs, des airs de tenace mémoire"(OLLIVIER, 1999, p.49). O autobiógrafo não é um copista, mas um inventor da realidade; ele é antes um ficcionistaque um historiador de si mesmo, não tendo assim nenhum compromisso com a verdade:

 

Demiurge, j´offre la vie à des images inertes, celles qui confusément m´habitent. Je sais, je ne fais pas là œuvre originale puisque, c´est connu, lorqu´on croit évoquer le passé, il n´y a qu´un pour cent de véritable évocation : le reste n´étant que fantaisie. Toutefois, ce résidu suffit à justifier, s´il en était besoin, l´existence, la réalité du souvenir (OLLIVIER, 1999, p.16).

 

A imagem do demiurgo sugere que seu trabalho não é o simples registro de reminiscências, mas um trabalho de criação, já que o passado só adquire vida através da linguagem. A narrativa da própria vida, mais que um exercício de rememoração, se assume como um exercício de ficcionalidade, que vai se orientar não a partir do passado, mas a partir do projeto presente ou até mesmo futuro. É que, como explicita Lejeune, a infância obedece “a uma geometria variável. Recorremos ao grande viveiro da memória, reconstruímos origens sob medida, em função das necessidades do presente, e do futuro no qual nos projetamos” (ESCARPIT, POULOU, 1993, p.11)[1].

Assim é que os relatos de infância de Chamoiseau e Ollivier serão elaborados em função das convicções e do projeto atuais do eu.

O problema central que se coloca para escritores como Chamoiseau é “Écrire en pays dominé” – título de uma de suas obras, publicada em 1997:

 

Como escrever quando teu imaginário se alimenta, até mesmo nos sonhos, de imagens, pensamentos e valores que não são os teus? Como escrever quando o que és vegeta longe dos movimentos que determinam tua vida ?

Como escrever, dominado ? (CHAMOISEAU, 1997).

 

A Martinica, país do autor, fora colônia francesa desde o século XVII, e, em 1946, torna-se departamento francês de além-mar, estatuto que permanece até os dias de hoje. Os martinicanos vivem em situação de diglossia, ou seja, a coexistência de duas línguas — o francês e o crioulo — com estatutos diferentes[2]. Divididos entre duas línguas e suas respectivas culturas muitos escritores martinicanos contemporâneos, como Chamoiseau, escolheram escrever na língua do colonizador, mas desde que marcada pela presença do colonizado Eles vão se apropriar dos gêneros literários ocidentais, rompendo com algumas de suas convenções formais, mas sobretudo fazendo um uso especial da língua francesa, recorrendo à oralidade do crioulo:

 

A crioulidade (...) marcou de modo indelével a língua francesa. Nós nos apropriamos dela. Nós estendemos o sentido de certas palavras, desviamos outras e metamorfoseamos muitas. Nós a enriquecemos tanto no léxico quanto na sintaxe. Nós a preservamos em muitos vocábulos cujo uso se perdeu. Enfim, nós a habitamos. (...) Nela, construímos nossa linguagem... (BERNABÉ, CHAMOISEAU, CONFIANT, 1989, p.47).

 

A autobiografia de Chamoiseau tem como ponto central o antagonismo entre as duas matrizes constitutivas do eu — a cultura crioula e a cultura francesa —, embora não incida na antinomia fácil que opõe uma apologia ingênua da primeira a uma negação simplista da segunda. O que se depreende de seu relato é a constatação de que se foi exposto a duas matrizes e que, conseqüentemente, a interpretação do eu não pode ignorar a consideração dessa narrativa partida.

Essa oposição entre as duas matrizes às quais foi submetido o eu será encenada de dois modos. No que concerne à estrutura da narrativa, pela presença de dois espaços-tempos, a casa e a escola, que correspondem, respectivamente à matriz crioula e à matriz francesa. No segundo volume, Chemin-d´école, esse antagonismo entre as duas matrizes será metaforizado pelo combate entre dois personagens, o Mestre, figura-tipo do assimilado e um dos colegas do narrador, Gros-Lombric, figura tipo do inassimilável.

A narrativa de Chamoiseau não obedece, apesar das aparências, a uma ordem cronológica, mas é estruturada em função de dois espaços-tempos — a casa e a escola — que não apenas se sucedem, mas são ordenados por uma relação de antagonismo, posta em evidência pela mudança de ton da narrativa: ao lirismo nostálgico que domina a evocação do universo crioulo, sucede-se a distanciação irônica, o “rire amer” (CHAMOISEAU, 1994, p.13), que se sobrepõe ao sentimento doloroso provocado por “ce saccage de leur univers natal, (...) cette ruine intérieure tellement invalidante” (CHAMOISEAU, 1994, p.189), produzidos pelo sistema escolar colonial, negação absoluta da primeira matriz do eu.

A casa, que domina o primeiro volume, representa o espaço-tempo da memória afetiva e dos primeiros contatos com um mundo fortemente marcado pela cultura popular crioula. Nesse universo, dominado pela figura da mãe do narrador, Man Ninotte, o sobrenatural faz parte do quotidiano. Nele circulam lendas, costumes e personagens da vida popular, como o quimboiseur, espécie de feiticeiro, símbolo da resistência cultural ao colonizador, durante o período escravagista e Jeanne-Yvette, a contadora de histórias.

Já o segundo volume da autobiografia de Chamoiseau evoca o espaço-tempo da escola, de onde são banidos todos os elementos da primeira matriz do négrillon e no qual é imposta a segunda matriz, a francesa. Na escola, progressivamente, é introjetada a idéia de que a língua e a cultura francesas são superiores e de que a matriz anterior deve ser renegada — "On allait à l´école pour perdre les mauvaises mœurs: mœurs d´energumènes, mœurs nègres ou mœurs créoles— c´étaient les mêmes" (CHAMOISEAU, 1994, p.158) — culminando em um processo de alienação que afasta o négrillon e seus colegas de sua realidade imediata, impedindo-os ao mesmo tempo de se identificarem com a matriz do colonizador. A narrativa revela as contradições burlescas desse processo: as crianças aprendiam que tanto elas quanto o professor negro, eram descendentes dos gauleses "aux yeux bleus, à la chevelure blonde comme les blés" (CHAMOISEAU, 1994, p.159); os heróis da história nacional eram Vercingétorix e Joana D´Arc; os textos de leitura narravam o cotidiano de personagens franceses.

Na escola, a oposição entre as duas matrizes é encenada através do combate entre dois personagens — o Mestre e um colega do négrillon, Gros-Lombric — que, embora inspirados em pessoas reais, representam alegorias, perdendo contorno natural e empírico para se constituirem em tipos ideais. O Mestre é a figura-tipo do assimilável e Gros-Lombric, a figura-tipo do inassimilável. O combate entre os dois se transforma numa luta entre a Luz e as Trevas: o primeiro detém a escrita, o "Saber universal", o segundo é o "Mestre da Palavra", da oralidade, depositário da cultura popular rural. Entre eles, se debate o eu, dividido entre os valores que os dois representam..

A narrativa termina com o aprendizado da leitura e da escrita pelo négrillon, permitindo a sugestão de que ele, finalmente, tenha escolhido o caminho do Mestre:

 

Enclos sur ces pages d´écriture, le négrillon vivait de vrais bonheurs (...) Gros Lombric, amorphe, le regardait du coin de l´œil.

Que voyait-il, lui, ce gouverneur-créole ?

Que voyait-il, lui, qui allait disparaître des chemins-écoliers ?

Sans doute pas grand-chose.

Il lui aurait fallu un vieux don de voyance pour deviner que — dans ce saccage de leur univers natal, dans cette ruine intérieure tellement invalidante — le négrillon, penché sur son cahier encrait sans trop savoir une tracée de survie... (CHAMOISEAU, 1994, p.189).

 

Mas o eu não reitera o Mestre, a expressão survie designando a alternativa astuciosa que permitirá ao négrillon escapar ao destino de Gros-Lombric, que se viu obrigado a capitular ao se entregar ao particularismo radical e absoluto, e ao do Mestre, cuja pretensão à universalidade levou-o a flutuar no vazio, sem a escora de sua cultura. A imagem do eu menino, “debruçado sobre seu caderno”, traçando "um caminho de sobrevivência" prefigura a imagem do eu adulto, o escritor, construindo sua síntese compósita, a partir do que reconhece ser a herança positiva que recebeu de cada um: no Mestre, os livros, a alta cultura; em Gros-Lombric, a força da “parole sousterraine” (CHAMOISEAU, 1994, p.169), forma de resistência à matriz do colonizador.

Tal como na obra de Chamoiseau, a trajetória do eu menino, no relato de Ollivier, remete metaforicamente à trajetória do eu adulto. Como tantos outros escritores haitianos, Ollivier deixou seu país de origem em 1965, por problemas políticos, durante a ditadura Duvalier, refugiando-se na França antes de ir para o Canadá, seu país de adoção. O trabalho de rememoração, em Mille eaux, consiste em combinar imagens reais e inventadas do passado, que o ajudem a "déchiffrer l´énigme” não de sua vida, mas de “[s]es vies" (OLLIVIER, 1999, p.49), já que o autor se define como haitiano e quebequense:

 

Comme dans la dialectique d´Edouard Glissant, il me faut à la fois l´errance et l´enracinement. Après trois décennies au Québec, je me sens libre, ivre même de cette liberté. Mais il m´arrive de songer à retourner à Haïti, boucler la boucle. (...) Pour moi, il s´est passé quelque chose ici, au Québec. On ne peut pas y vivre plus de trente ans en toute impunité. J´y suis arrivé très jeune et j´ai vieilli dans ce pays. Je ne peux plus prendre mes cliques et mes claques et rentrer tout simplement à Haïti (OLLIVIER, 1999).

 

A narrativa de Ollivier vai colocar em primeiro plano as questões inerentes à sua situação de escritor migrante. Assim sua infância será encenada à luz da experiência do exílio e da errância, como se, indiretamente, o narrador contasse uma outra história:

 

cette autre histoire qui a recouvert d´un drap de sang toute mon adolescence et mes premiers pas d´adulte. Mais elle est connue celle-là: la dictature, l´exil, l´errance. Cette histoire je la porte en moi, collée à ma peau comme de la glu. Souvenirs de sang, de larmes, hanterez-vous encore longtemps ma mémoire ? N´y a-t-il nul espace pour l´oubli ? Temps mythifié de l´enfance perdue, temps de l´arrachement et de la grisaille de l´errance, temps impersonnel, temps de la lente chute, temps aux rêves inaboutis, temps sans perspective (OLLIVIER, 1999, p.120).

 

O sentimento de exílio, experimentado pelo eu adulto, é transposto para a infância. Depois da morte do pai, o menino deixa sua cidade natal, Port-au-Prince e muda-se, com a mãe, para Martissant. Uma fotografia, aos nove anos, é representativa de sua solidão: sem amigos, ele se entrega, solitário, por horas a fio ao jogo, ao jogo de amarelinha:

 

Que de fois, depuis la mort du père et cet exil à Martissant loin des copains, il est allé au ciel. Voilà pourquoi il a l´air de danser sur la lune, de flotter au milieu de nuages. Voilà pourquoi il ressemble à une flamme fragile, vacillante, sur une tombe à la Toussaint (OLLIVIER, 1999, p.82).

 

Entretanto, nessas circunstâncias, ir ao céu significa, de fato, viver no inferno, assim como Dante, exilado em Verona:

 

lorsque Dante marchait à travers Vérone le peuple le montrait du doigt et murmurait qu´il était en enfer. Aurait-il pu sans cela décrire tous ses tourments ? Il ne les a pas tirés de son imagination, il les a vécus, éprouvés, vus, sentis, il était vraiment en enfer, dans la cité des damnés: il était en exil”(OLLIVIER, 1999, p.106).

 

A morte do pai significou, para o menino, a primeira experiência da dor da ausência e a perda das raízes. O eu se defronta, então, com a loucura da mãe, cuja “propension à marcher”, os leva a mudar freqüentemente de residência:

 

Mon père mort, j´entrai dans un long couloir obscur fait d´une suite de petites épreuves. Quand on est en proie à de grands tourments, on a tendance à vouloir bouger, à changer de décor, de lieu, de résidence, comme pour changer le mal de place. Madeleine déménagea souvent (OLLIVIER, 1999, p.49).

 

É nessa época que ele se transforma no “enfant aux pieds poudrés”, herança recebida da mãe, que persiste até hoje: “S´il est un héritage que j´ai recueilli de ma mère, ce sont les pieds poudrés. Aujourd´hui encore, alors que je marche vers la soixantaine, il me vient de ces envies de prendre la route, de m´en aller au hasard de mes pas”(OLLIVIER, 1999, p.161).

A ordenação de Mille eaux reproduz essa errância. A narrativa não obedece a nenhuma ordem lógica, mistura épocas e inverte a ordem dos acontecimentos, traduzindo o movimento dessa vida nômade, submetida ao acaso, em que o eu se via obrigado a renunciar ao passado e ao futuro: “Tu as coulé ta vie comme le fleuve coule ses courants (...) vivant entre l´amont et l´aval, l´instant présent” (OLLIVIER, 1999, p.l73). Entretanto, nessa existência sem projetos, o eu tinha pelo menos uma certeza: “les livres sont des bateaux, et les mots, leur équipage. Leur lumière a éclairé ta route, comme la flamme s´avive joyeusement sous le souffle du vent” (OLLIVIER, 1999, p.173).

Paradoxalmente, foi sua avó, analfabeta, que o estimulou a entrar no universo da leitura, onde o menino encontra um remédio para sua solidão: “Et je me suis inventé en réinventant le monde” (OLLIVIER, 1999, p.157), assim como, mais tarde, o eu adulto vai, por sua vez, inventar outros mundos.

Sua vida de escritor começa, segundo ele, quando escreve pela primeira vez fora da situação escolar, com o objetivo de conseguir dinheiro para ir ao cinema. Tendo recorrido ao pai, este lhe propõe que faça seu pedido por escrito e, se não cometer nenhum erro, ganhará o dobro da soma que pediu. Assim, o menino é levado, pela primeira vez, a escrever "avec une stratégie explicite de séduction" (OLLIVIER, 1999, p.24).

O eu recompõe a cena de seu nascimento como escritor, descobrindo uma analogia entre a sensação experimentada pelo eu infantil e o sentimento que toma conta do eu atual quando se vê diante da página em branco:

 

il m´arrive de ressentir sinon la même panique, du moins un pincement au cœur que j´attribue, à tort ou à raison, à ce premir contact avec la langue française como appât, cette langue française à la fois écueil, refuge et tribune aux dimensions du monde (OLLIVIER, 1999, p.25).

 

Ollivier evoca assim a situação do escritor migrante e suas relações problemáticas com uma língua que não é sua, com a qual ele tem "un rapport ambivalent (...) de haine et de séduction" (OLLIVIER, 1999, p.59). De um lado, a utilização do francês permite-lhe falar para um público mais amplo e a língua segunda tornou-se um refúgio, na medida em que é a língua do país que o adotou. Entretanto, exprimir-se em francês significa, ainda hoje, ultrapassar obstáculos, pois essa segunda língua foi interiorizada de maneira violenta,"dans une sorte de socialisation sauvage, subie, imposée" (OLLIVIER, 1999, p.24) e seu aprendizado implicou na anulação da língua materna, o crioulo, cujo uso era proibido na escola.

Para o escritor migrante, o francês será sempre uma língua outra, que o condena à experiência da alteridade: "C´est elle qui donne à ma voix ce ton âpre, comme si ma propre musique, sur un autre clavier, ne peut se jouer que dans le registre du grave" (OLLIVIER, 1999, p.25).

O aprendizado da língua é um tema recorrente nos relatos de infância de autores caribenhos, não apenas por ter sido uma dura experiência passada, mas sobretudo por que a questão lingüística é central para esses escritores que escolheram escrever em francês. Daí que, nas narrativas de Chamoiseau e Ollivier, o eu vai recriar sua infância, sem se preocupar com a veracidade de seu relato, em função de seu projeto atual.

A escrita de uma vida, escreve Jean Genet, em seu Journal du voleur, não informa sobre o passado do eu, mas sobre seu presente: “Esse diário (...) não é uma busca do tempo passado, mas uma obra de arte cujo material pretexto é minha vida de outrora. Ele será um presente fixado com a ajuda do passado, não o inverso” (GENET, 1949, p.80).

Assim como Jean Genet, Patrick Chamoiseau e Émile Ollivier não se orientam no sentido de fazer um impossível resgate do passado, mas, a partir dele, realizar uma obra de criação significativa do eu presente.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BERNABÉ, Jean, CHAMOISEAU, Patrick, CONFIANT, Raphaël. Éloge de la créolité. Paris : Gallimard, 1989.

CHAMOISEAU, Patrick. Antan d´enfance. Paris : Gallimard, 1996.

_____. Chemin-d´école. Paris : Gallimard, 1994.

_____. Écrire en pays dominé. Paris : Gallimard, 1997.

_____. Antan d´enfance. Paris : Gallimard, 1996.

FIGUEIREDO, Eurídice. “Canadá e Antilhas: Línguas Populares, Oralidade e Literatura. In: Gragoatá no 1, 1996, p.127-136.

GENET, Jean. Journal du voleur. Paris : Gallimard, 1949.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris : Seuil, 1975.

_____. Avant-Propos. In: ESCARPIT, Denise, POULOU, Bernadette (org.) Le récit d´enfance en question. Paris : Éditions du Sorbier, 1993.

OLLIVIER, Émile. Mille eaux. Paris : Gallimard, 1999.

_____. Entrevista ao jornal Libération, 18 de março de 1999.

ROBBE-GRILLET, Alain. Les Derniers Jours de Corinthe. Paris : Minuit, 1994.



[1] As citações que aparecem em português foram traduzidas por mim.

[2] “Ch. Ferguson chamou de diglossia essa coexistência de duas línguas com estatuos diferenciados, cujas funções são complementares: uma língua ocidental, de prestígio, transmitida pela escola e usada nas situações públicas e formais e uma língua adquirida informalmente, oral, desprovida de prestígio e de uso restrito à família (FIGUEIREDO, 1996, p.131)